domingo, 24 de agosto de 2008
domingo, 17 de agosto de 2008
PEÃO DE OBRA
A música é divina. As vezes crio ouvindo clássicos. Até sertanejo e pagode, tipo SPC, dão o tom para a escrita. E rock? Nem se fala. Agora mesmo tô ouvindo os gritantes Linkin Park.
Qualquer melodia é bem-vinda, desde que nos anime.
Brigadaço pelo espaço. Sorte pra ti.
Ronaldo
msn: ronaldo@ronaldoduran.com
por ronaldo duran*
Acredito que o peão de obras não precisa ser tão vulgar. Por causa desse desabafo fiquei mal visto pelos colegas de profissão por um bom tempo. Mas que fazer?! Cada um com sua cruz. Advogar uma idéia, defender uma postura sempre gera conflitos, principalmente se destoa do grupo ao qual você pertence.
A indignação já é minha velha conhecida. E mesmo após trinta anos de profissão, ela persiste. É claro, na minha idade, o fervor de se opor fica mais derretido. A rebeldia do jovem dá espaço para uma atitude mais reflexiva. Dizem que é acomodação. Pode ser!
Entrei na profissão como tradicional ajudante de pedreiro. E desde que descobrir em mim racionalidade, nutri pela profissão um misto de amor e ódio.
Amor pela construção. A capacidade de levantar uma parede, fazer reparos, ser bem visto pelo meu paizão, pois eu fui o único que o seguiu na profissão. Ah, tinha o peso de filho mais velho, que devia logo ser prestativo. Mas se fui empurrado para ser pedreiro, só permaneci sendo por gosto.
O ódio era o jeito de falar, de se comportar, de se vestir, de rotar, de cuspir, dos primeiros pedreiros que vi pela frente. Mesmo meu pai não sendo perfeito, longe de se rebaixar a tanto. Na década de sessenta a coisa era mil vezes mais grotesca. A marmita gelada. Após o almoço, o cochilo jogado sobre entulhos. Os dentes cariados e podres fruto do desleixo, falta de educação.
Não foi uma ou duas vezes que pensei em dar no pé e não aparecer mais na construtora.
Mas sempre tem algo que te irrita mais no meio de tanta lama. O pior era o assédio à mulher que passava na rua. Sei lá, ouvir a peãozada falando que lambia, que chupava, que comia. Era uma manga, carne moída, ou mulher de quem falam? Eu era virgem cheio de ilusão. Talvez por isso ficava desolado com os comentários.
Mas eu acredito que a gente pode desejar, que pode ser um super-homem na cama (se é que existe algum) sem precisar ficar espalhando aos quatro ventos que é o tal.
Claro que eu sou homem. Quando vejo uma bela mulher desfilando pela rua eu a aprecio, sem usar de palavras chulas. Porque poderia ser minha filha, mulher ou mãe que vai lá na frente. Nada de dissimulado, apenas respeitador.
Na verdade eu estava namorando. Eu gostava muito da Suely. Eu era romântico. Se eu não fosse filho do pedreito chefe, os caras, claro, que teriam me mandado para a rua quando eu falei cão que muito ladra, pouco morde. Sugeri que quem precisava falar muito sobre sexo é porque fazia pouco ou de modo pouco prazeroso. Meti o dedo no olho do machismo. Quase linchado.
Estudei edificações. Depois surgiu a oportunidade de cursar engenharia. Sou caso raro, quase não conheço ex-servente de pedreiro que seja engenheiro civil. Mas eu batalhei, porque sempre fui meio revoltado em me subjugar.
Minha empreiteira está longe de ser uma clínica de odontologia ou rosado salão de beleza, como alguns maliciam. Mas meu pessoal tem uma sala asseada e confortável para que possam fazer suas refeições e descansar com dignidade.
* Escritor, romancista, contista, autor do livro SONHAR É BOM, VIVER É MUITO MELHOR. Disponível pelos fones 012 30194761 e 012 81523733.
sábado, 16 de agosto de 2008
Bato Com Vontade
Vou me desabafar, então nem me venha pedir consideração. Por falar nessa tal de consideração parece que os bateristas estão cada vez mais desprovidos do mínimo. A gente é visto como o último dos últimos, isto quando chega a ser notado. Lá no fundo, estamos a socar a bateria, dar o melhor de nós. E de que vale? Todos os fricotes e gritos para os vocalistas, piscadas sensuais para os guitarristas. E nós, nada. Eu estava meio de saco cheio. Até pensei dar um tempo. Tudo bem, eu até entendo a divisão de trabalho, compreendo perfeitamente que numa banda os olhos da multidão naturalmente se voltam para quem está com o microfone na mão, soltando a voz, pulando, gritando, excitando a galera.
Sei que numa equipe todos temos nossa parte porque senão a equipe não vinga.
Mas que ego suporta tanta indiferença, humilhação? Já não basta ver por aí vocalista dando entrevista, sendo agarrado, adorado. Sequer valorizam nosso trabalho. Esquecem que sem baterista, o corpo não suinga, os quadris não se mexem freneticamente, as meninas não rebolam, e os rapazes não ficam pulando. Que cantor faz a galera sair do chão só com sua voz? Que balada dá um suadouro se você não se agita ao som da bateria?
Pior é ser barrado na porta. É isto mesmo. Teve uma vez, lá em Assis, que fomos dar um show. Calhou de eu me atrasar. Fui barrado porque o segurança não levou fé que eu era da banda. Ponte que partiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu eu sou baterista. Tive que espernear.
Se eu fosse o vocalista, me estenderiam o tapete vermelho, me reconheceriam logo.
No palco, quando uma tiete corta o bloqueio de segurança, é batata que vá direto para os braços do vocalista. De quebra, um beijinho no guitarrista. E o baterista? Um cão sarnento seria mais notado, pelo menos em função do medo de pegar sarna. A gente fica lá, isoladaço.
É pra deixar irado.
Após o show, no camarote, o único colo que fica vazio é o meu. O vocalista tem uma gata em cada perna. Nem os guitarristas têm do que se queixar.
Ossos do ofício. Nem sou tão frissurado em conquistar ou atrair tietes. Não é esta a questão. É a falta de valorização que me machuca, me pisa. E com a moda do órgão que simula bateria, aí é que estamos ferrados. O cara liga a máquina, e pronto.
Vinha nesse pé, meio irado. Mas a Renata me livrou duma deprê maior. Foi
Toda vez que o vírus do despeito me machuca, eu bato com vontade na minha batera, pois agora tem alguém que me sorri na multidão. Ela costuma ir aos meus shows...
* Escritor, docente na Fundação Casa -SP colabora em jornais. MSN: ronaldo@ronaldoduran.com
sábado, 2 de agosto de 2008
A JAULA
Sempre que ouço o povo malhando alguém famoso como pessoa instável, volúvel, aproveitadora, quando o assunto é casório, eu fico na reserva. Quem tem culpa no cartório se cala para que o alvo de crítica não se volta para si.
Longe de mim comparar-me a um Don Juan em número de conquistas, e não é pelo fato de eu ser mulher, quarentona, pois tenho amigas que em nada perdem para os dois popstars. De casamento passei por dois. E estou no segundo namorado, que quer me enlaçar matrimonialmente.
O primeiro casamento, tinha a curiosidade sexual como atrativo, visto que era virgem. Curiosidade, sim, ainda que inconsciente. Afinal no tempo em que eu era uma adolescente, o ficar ainda não estava institucionalizado, e pai e mãe eram muito amigos, mas igualmente castradores. Vigiavam-me mentalmente por onde eu estivesse.
Claro que quem quer sempre há como escapar. E curtir. E muitas curtiram e eu querendo ir no vácuo, me estrepei. De primeira, engravidei. Nada de neurose, adorei. Dei um salto, virei mãe e dona-de-casa, deixando para trás um emprego legal e uma promissora carreira para adentrar numa mais ainda promissora carreira maternal.
O príncipe do meu lado se transformou. Evito o clichê de que virou sapo. Porque até nós mulheres quando estamos interessadas em conquistar fingimos o que não somos, ainda que não percebamos esta atitude. Imagina o homem que tem mais pressa.
Ele começou a mamar álcool, destoar do que era quando namorávamos. Depois de comer um quilo de sal juntos é que se conhece um pouco o companheiro, diz o ditado.
E as brigas, os desentendimentos, os choros ora sufocados ou gritados, o desânimo visceral, desespero mortal, os dias de semana separados pelo trabalho, o fim de semana separados pela cachaça. Tá, tinha a parada básica, biologicamente determinada. Um beijo aqui, uma carícia ali. Mas chega uma hora que a aversão murcha qualquer libido e queremos mais é se esquivar.
O casamento por vezes parece ser uma jaula na qual se entra e jogamos a chave fora, e quando percebemos, damos de cara com os dentes caninos, as unhas afiadas, a língua venenosa do parceiro que achávamos ser a tal alma gêmea.Vai ver eu esteja exagerando. Vai ver é fruto dessa cabeça meio revoltada, mimada, que tendo tudo, não precisando sofrer por comida, emprego, salário, encana com coisas triviais. Quem sabe eu seja a insatisfeita.
Há quem viva com a Cama Sutra debaixo do braço, com o intuito de não deixar o fogo apagar. Mas viver a dois vai muito além da cama. A cama só é a porta de entrada numa relação duradoura, uma gota de água no oceano chamado casamento.
Por que a paixão diminui? Rebelar-se com esta realidade não se assemelha a revoltar-se contra o fato de que nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos?
Eu vou tratar de cozinhar meu arroz e feijão, lavar minha roupa, me preparar para receber ele à noite. Vamos namorar. Novamente vou fingir não ouvir o pedido de casamento. Até que ele volte para seu apartamento e eu tranque o meu.
* Escritor, docente na EFCP da Fundação Casa -SP. Acesse o autor no Google.
domingo, 20 de julho de 2008
A FORMIGA
Que Noite Terrível A De Ontem. O maior massacre da história. Nunca ouvi falar de tantos cadáveres juntos. Formigões, formigas, formiguinhas. Amontoavam-se corpos queimados, carbonizados, sufocados pela fumaça. Uma tragédia. Pensar que por frações de minutos eu teria tido o mesmo destino. Sorte a minha é que como hoje seria dia de dar conta do serviço, cuidei de me retirar da festa cedo.
A Festa É Das Tradicionais. Todo ano é uma sensação a festa dos formigueiros de São João do Paraitinga. Caravanas vêm de várias partes do Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira para aí deliciar-se com as comidas típicas. No ano passado tive uma paquera, e por nada desse mundo faltaria à festa. Ela estaria lá. Formosa, linda, meiga, carinhosa, numa palavra, uma formiga para casar e não para ficar.
Limpei Minhas Patas, Antenas, Dei Uma Ajeitada No Visual. Lá estava ela. Cumprira a promessa que me fez. Namoramos, trocamos confidências. Ela me apresentou ao seu pai, um formigão babão, que fica de olho nas formiguinhas adolescentes, com destaque para as tanajuras, mas tudo numa discrição ímpar. A mãe, alvoroçada e faladeira. Dois irmãos que brigavam por tudo, desde um torrão de açúcar até um minúsculo pedaço de folha seca. Boa gente. O carisma fora recíproco. Gostaram de mim.
Dançamos, Nos Divertimos. Namoramos a beça. Por fim nos despedimos depois de trocarmos infinitas juras de amor e promessas que desta vez nos veríamos em breve, visto que a família nos dera passe livre para namorarmos.
Hoje Levantei Empolgado Para Trabalhar. Afinal sonhei fazendo com ela o que não fizemos na realidade. Sem faltar abraços, beijos e muito carinho. Segui meu caminho do quarto para a cozinha, e bastou chegar lá, vejo minha mãe, tia, tios, aos prantos. O que teria acontecido? Uma tragédia fora a resposta unânime. O meu coração disparou. Pensei nela. Saí completamente enlouquecido. Cheguei quase esbaforido ao local do formicídio. As forças ainda me foram suficientes para perambular pelo entulho de cadáveres. Encontrei a mãe dela junto aos dois irmãozinhos. Fiquei aliviado momentaneamente. Mas chegando perto, sentindo o pesar materno, logo mergulhei no desespero novamente. Ela, minha formiguinha preciosa, minha futura esposa, havia tido a vida ceifada junto com o pai. Ai que dor, ai que raiva. Que vontade de suicidar-me, de aniquilar minha vida quando a segurei em meus braços, sua cabeça tosquiada, o crânio rachado. Que dor infernal.
A Causa Do Formicídio? A raça humana. Não é da primeira vez, e tão pouco será a última. Eles vendo nossa festa, nossa digna diversão, ao ar livre, guiados apenas pelo instinto de destruição, visto que o formigueiro não pertencia a qualquer residência, promoveram esta formiguicina. Já nas fazendas, nos sítios, chácaras humanas, perseguem-nos julgando em seu direito. Agora, vem em área desolada, sem dono para covardemente assassinar nossa gente.
Presunçosa espécie, que pensa que o planeta Terra fora criado para si. Inventaram esta mentira, e a força de repeti-la por gerações passaram a aceitá-la como verdade.
Não Tenho Sequer O Poder Da Barata De Meter-lhes Medo, Nojo. Mas tenho coragem. Juro minha formosura, que farei de tudo para vingar sua morte. Serei tão teimoso quanto um Dom Quixote. Juntarei meus companheiros para perturbar os humanos enquanto reste em mim um sopro de vida.
Escritor, colabora em jornais. Psicólogo, pedagogo e professor de francês. Msn: ronaldo@ronaldoduran.com
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Um Toque Sutil
QUERIA TUDO NAQUELE DIA, menos lição de moral. Desejava encontrar espaço para desabafar, dizer que a situação estava ruim. A vida se apresentava sem encanto. O emprego de escrivão de polícia, o irrisório salário, anseio de ser valorizado. A engrenagem do destino parecia travada quanto a me propiciar melhores perspectivas.
É DIFÍCIL FUGIR DE DITADOS do tipo: ‘olhe para trás, e verá sempre alguém pior que você’. Comentários assim têm o poder de nos irritar mais que acalmar. E desabafos como ‘o que eu tenho a ver com isso’ irrompe, protesto cujo único fim é afirmar que se há injustiças sociais ou pessoas em piores situações que eu, também há as que estão numa melhor.
Um brado. Afinal, nós temos direitos a nos lamentar.
NO ÔNIBUS, A LEITURA DO The Economist é rotina para vencer o tempo. Hoje antes de comprar o The Economist novamente a insatisfação tomou conta de mim. Tudo porque tive as portas fechadas do Itamaraty, da carreira diplomática. Nota insuficiente. Mais um ano de dedicação perdido.
NO ÔNIBUS SIGO calado pela leitura. Nada atraente. Fala de atentado, de intolerância, de pessoas trabalhadoras mortas covardemente na ida para o trabalho no trem de Madrid.
DE REPENTE, UM HOMEM moreno, dentes estragados. No bolso, um saco de biscoito comprado do ambulante. Passa pela roleta com uma criança no colo e chama nossa atenção. Para exercer o papel de pedinte deve falar alto.
DE IMEDIATO, MINHA MENTE já se armou. Lembrei das propagandas da prefeitura: não dê esmola, não incentive a mendicância. Há um serviço social disposto a oferecer a devida assistência.
HOJE FOI DIFERENTE. A imagem da criança, as palavras do pai serviram para sacudir. Acabei refletindo sobre a vida. Um ou dois minutos de fala, e afrouxei o nó do egoísmo mórbido que me dilacerava. A criança que mal era alimentada. O pai ali a suplicar moedas.
TENHO EMPREGO. Minha filha está livre de privação. É alimentada, tem carinho e é a razão de minha vida. Casa, esposa, uma carreira. Vejo o homem, sem profissão, sem perspectiva de sustento, mergulhado na mendicância. A consciência me mostra a pequenez em que me afundava. De repente, um toque sutil me paralisa o rancor.
POSSO SER ÚTIL. Vou servir às crianças na escola. Como? No que puder. Eu sou fruto da escola pública. E a educação pode reduzir a miséria, criando futuros pais capacitados a alimentarem bem suas crias. É pouco, mas como propósito de vida conta. Imitarei o assalariado que em horas vagas visita vestido de palhaço hospitais para animar crianças internadas, às vezes estando em fase terminal.
APESAR DE LAMENTOSOS soterrados em interesses pessoais, por vezes temos a chance de refletir sobre o propósito de estarmos vivos e reestruturar nossas ações.
*Autor de romances. Visite os sites http://www.livrariacultura.com.br/ e http://www.corifeu.com.br/. O romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! está disponível.
A FLAUTA
“Se alguém me contasse eu não acreditaria”, foi a fala do Gui logo que me viu levantar às três horas da manhã para ensaiar flauta. A noite foi boa, sim. Fiz de tudo para que o ego dele não balançasse. Sei, está virando um hábito. Toda vez que ele vem, eu faço isso. Soa incomum sair de perto do namorado no meio da madrugada. Quanto mais no nosso caso, que nos vemos a cada quinzena. Ficaria muito caro e cansativo para ir todo fim de semana para São Carlos. Idem para ele vir para São Paulo. A enfermagem suga toda a energia do meu amor, e nem ligo quando telefona dizendo que está um bagaço ou que tem plantão no fim de semana.
Os sábados solitários já seriam justificativa suficiente para arrumar um passatempo musical. O espanto do Guilherme é que sempre fui roqueira. Uma guitarra, mesmo uma bateria seriam previsíveis. Mas uma flauta? Aos poucos estou explicando os motivos a ele. Participar do coral do campus, preço em conta, o menor incômodo aos vizinhos, e segue a lista dos porquês.
Desde o primeiro ano de faculdade que pertenço ao coral. De início minha participação se restringia ao canto. Quase dois anos exercitando as cordas vocais às sextas-feiras. Era uma sauna para relaxar os nervos depois da aula da tarde. Da minha turma, quatro amigas. O professor de desenho arquitetônico II encerrava a aula e a gente ia para cantina, tomava um lanche e corria para o anfiteatro.
Dos poucos instrumentos que o coral contava, gostei da flauta. Soprei umas vezes, e que fracasso. Mas sei lá por que determinei que eu ia dominar, ia ter destreza. O universo conspira a nosso favor quando nos propomos a fazer algo. E não é que achei um estudante de jornalismo que tocava razoavelmente bem. O rapaz era ótimo. Tá, na terceira aula eu falei que tinha namorado e que até podia pagar as aulas se ele quisesse. Tudo para que ele abandonasse a cara de cachorro faminto e me desse o que me interessava: aulas de flauta. Ele se tocou e ficamos bons amigos.
Superei o mestre, segundo ele, já ao término de seis meses. Os treinos solitários nas várias madrugadas ajudaram nesta empreitada. A flauta acima de tudo foi uma terapia. Das vezes que quis detonar o professor de estatística, aquele engenheiro bêbado e desbocado, bastava eu soprar flautas à noite que no dia seguinte estava zen e que ele rosnasse o que quisesse. A solidão de minha kitinete igualmente fora aplacada pelo som e companhia de minha amiguinha. Até o momento fiz duas apresentações no conservatório da faculdade de música.
No terceiro ano de curso, quando a galera diz que a faculdade vai ou racha, quase pendi para a música. Pensei sinceramente trancar a faculdade de arquitetura e me atirar na de Música. Cheguei até assistir aulas como ouvinte. Mas no fim notei que minha praia era mesmo o ganha-pão de Lucio Costa. Música para fortalecer o espírito, acalmar os nervos. Ouvir flauta me inspirava nos trabalhos urbanísticos.
Tudo bem. Só que preciso moderar a paixão pela flauta para não se tornar um escapismo. Nada a ver deixar meu gato nas cobertas solitário.
(A garota deu um sorriso. Saltou do parapeito da janela. Guardou a flauta na caixa. E correu para debaixo das cobertas com seu amor enfermeiro).
A BELEZA QUE ATRAPALHA
Queria que tudo fosse fruto de minha cabeça tola. Que esta presunção soasse como algo insano em vez de me espetar de forma tão realista. Sim, a gente vive buscando uma razão para justificar os passos, explicar sucessos e fracassos. E o fracasso de fazer parte da minoria da galera que não entrou na faculdade almejada é suficiente para eu achar uma razão. Todo mundo comemorando e eu aqui na fossa. Falta de estudar, de me aplicar para valer? Sim. Por quê? É a beleza que atrapalha. A beleza que me mima, desviando-me dos propósitos que um vestibulando deve ter em mira.
Como a beleza pode atrapalhar? Me desculpa a presunção. Porém só sendo bela para responder. Já dizia minha avó que tudo em excesso faz mal. O que ela diria de ser assediada pelos rapazes, mimadas por eles? E certos professores mulherengos, ser tão paparicada que deixa tonta? E as professoras que diante de mim sei lá por que se sentem magoadas, e tentam ser superiores com testes que parecem mais difíceis que a média?
Olha como estou zonza. Nada a ver culpar os professores. Eu que sou responsável pelo péssimo desempenho. Assumo que gosto de ser paparicada, ter os meninos me olhando, disputando minha presença, fazendo meus exercícios de física e matemática, escrevendo minha redação, ou, ao menos, me dando dicas mastigadas, quase que me deixando ociosa na classe. Bem, não tão ociosa. Dou atenção a seus instintos e aos sentimentos platônicos. Sorrio, concedo o privilégio de lhes dirigir a palavra. Gostam de sentir meu perfume, de olhar meu rosto. Enfim, levando-os ao delírio e não raro causando briga para ver que domina minha atenção.
Sem contar as horas que gasto atendendo aos suplicantes convites para ir a lanchonetes, tomar sorvetes, cinema. E se meus pais não fossem caretas, provável que eu seguisse para as baladas.
Meu sonho é fazer engenharia civil ou arquitetura. Os carinhas dizem que eu estou delirando, aquela coisa de loira burra. Mas eu vou dar a volta por cima. Tá, nada de me retalhar o rosto para anular minha beleza. Claro que meu ego quer ser paparicado. Quem não quer? Contudo, quero ter uma profissão. Ser respeitada. Há sempre um modo para conciliar situações conflitantes, e nós mulheres somos peritas nisso. Vou rachar de estudar. No que minha beleza pode ajudar? Atrair um gato nerde e junto a ele eu pegar as manhas da matéria. Vou provar a mim mesma que não sou só um rostinho bonito.
Minha Guaratinguetá, talvez eu tenha que te deixar. Mas um dia eu volto formada e pretendo embelezar você ainda mais, desta vez com projetos.
E não vou demorar. Catarei meus cadernos e anotações, diminuirei às idas aos shoppings, ao cinema, às praças de alimentação. Vou trocar o beijo na boca dos gatos pelo papel com as resoluções de problemas de matemática, claro, sempre que eu calhar de acertar.
*Escreve romances e colabora com crônicas em jornais brasileiros. Acesse o autor no google.
sábado, 7 de junho de 2008
A BATIDA

Quando vi tinha perdido o controle do carro. O freio não respondia. E tudo que pude fazer, ainda que de forma instintiva, foi evitar bater na muralha de concreto à minha direita. Joguei o carro para a esquerda, de reflexo. Por sorte carro algum vinha atrás. O carro descontrolado saiu da pista, atropelou uma placa, levantou a tampa de um bueiro e se atolou numa vala rodeada de matagal.
A chuva torrencial que inundou a rodovia Carvalho Pinto contribuiu para que meu carro sofresse aquaplanagem. Vendo-me privado do controle do veículo, do modo como deslizei, senti que chegara a minha hora de partir desta vida. Logo que o veículo parou, pulei pela porta dianteira cujo vidro tinha sido eliminado por completo. Ainda tonto vi a equipe da empresa que administra a rodovia vir a meu socorro, e verificado um leve sangramento na cabeça, pediram uma ambulância, além do carro guincho.
Por sorte sai ileso. Sinal para buscar maior prudência: sempre reduzir o máximo em chuva e evitar andar com pneus meia vida.
Se eu fiquei ileso de ferimentos, não se pode dizer o mesmo do bolso. A falta de seguro, o salário achatado e o crédito tão caro, no dia seguinte já me fizera tremer nas bases. Primeiro, rezei para que não fosse perda total. Mas de 40 prestações para pagar e ficar se carro seria dureza.
E dei início ao martírio que é correr atrás dos mecânicos. Não só pelo fato de que a cada orçamento um preço, e geralmente mais alto. Mas principalmente a cara de espanto dos mecânicos ao ver o estado do meu carro. “Vixe, a batida foi feia!”; ou para amenizar o impacto do futuro orçamento: “Você tem seguro?”. Nem tinha seguro tão pouco me sentia confortável com o ar de espanto. Natural que não somos frios em nossa profissão. Quem sabe seja mesmo motivo para espanto ver que o carro neste estado, precisando de um reparo radical. Mas é que para quem está na pele do prejudicado é dose ouvir os suspiros e frases algo padronizadas e que transparecem mais desespero do que um simples orçamento para se executar um serviço.
O prejuízo é certo. Afinal, necessitando muito do carro, vou ter que pagar, e sem chiar. Aconselharam-me pedir indenização à administradora dos pedágios, pois foi justamente na passagem livre do pedágio que eu tive o encontro com a pista escorregadia. O fato é que eu trabalho o dia inteiro.
O que resta a fazer é seguir o batuque. Pedir desconto ou pelo menos parcelas para suavizar o grosso gasto com o conserto, a fim de que caiba no bolso e eu não fique sem meu querido carrinho, ferramenta indispensável para o trabalho. E ligar pouco para as frases dos mecânicos, principalmente as que me deixam tenso.
E os dias sem carro. Andando para cima e para baixo de pé no coletivo. As horas para esperar o ônibus chegar. Nem é bom pensar. O que importa é que estou ileso, gozando da sorte de não ter ido parar num hospital e lá permanecer não sei quanto tempo antes de sair; isto se realmente saísse com vida. Num acidente de carro tudo é possível, desde perder um braço, perna, a vida ou apenas ganhar arranhões. Mas é sempre bom não abusar da sorte. Graças aos céus vou poder ficar um tempo a mais com minha família e meus alunos.
* escritor, autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! Disponível nos sites da livraria cultura http://www.livrariacultura.com.br/ e da livraria corifeu http://www.corifeu.com.br/
contatos com o autor pelo e-mail ronaldo@ronaldoduran.com
sexta-feira, 23 de maio de 2008
A Chapinha Molhou*

Olá pessoal! Sei, nunca me viram mais gordo. Na verdade, sou magro, estatura mediana, muito reservado. Embora sendo reservado decidi narrar o que me aconteceu. Numa empresa pública sou quem limpa banheiro, meio eletricista, faz de tudo. Na carteira assinam serviços gerais. Preciso ganhar. Sou estudante de direito. Nada tem a ver com o chavão de que se deve começar por baixo. Foi o ganha-pão que consegui e pronto. Deixo meu currículo de lado e digo a que vim. É sobre a mania de alisar o cabelo que reina entre as mulheres.
Por eu estar volta e meia consertando, lavando, varrendo, inevitável ouvir a verdadeira tortura, dessa necessidade quase insana de buscar o que não se tem. Parecem que nunca ouviram a canção do Gilberto Gil, tipo, sara sara desta doença, que tendo cabelo duro, querer ter cabelo liso...
Não sou preconceituoso. Se falo assim é mais por altruísmo que atitude mesquinha. O custo da manutenção artificial do artificial padrão de beleza consome uma fração pesada do salário. O dinheiro não é o problema; sim, o que pesa mesmo é a pouca satisfação.
Uma advogada me chamou atenção. Era atraente. Contudo, torturava-se na busca por aperfeiçoamento estético. Raro os meses que não aparecia com novidade: chapinha, aplique, etc. Falava de um namorado, mas o namorado um dia a trocou por uma loira de cabelos lisos, bem lisos. Talvez daí o trauma.
Surgiu uma festa, destas que o pessoal da empresa costuma criar. Soube que o ex-namorado, pelo qual ela ainda nutria uma queda, estaria lá e melhor, solteirão, havia terminado com a loira. A advogada viu-se numa verdadeira operação de guerra. Gastou metade de seu salário num tratamento super ultra mega moderno em chapinha.
Por volta das 22h, caiu aquele aguaceiro. A advogada não tinha carro. Perdera a carona e teve que ir de ônibus. Logo que desceu, a chuva cai impiedosamente. A chapinha molhou e a festa para ela acabou. A uma quadra do clube, a água caindo, ela de pé chorava cântaros.
Como sei? Apesar de reservado, me convidaram para festa, mas sou de só dar uma passada. Não bebo, e quem não bebe geralmente é mal visto pelos que tomam todas. Por isso saí cedo. De meu carro, a vi desolada. Parei e ofereci carona. Ela ficou espantada, como se um faxineiro não pudesse ser educado, gentil, compreensível e, sobretudo, ter um carro valorizado.
Duas semanas depois, estávamos namorando. Nem entro no mérito do preconceito lá na repartição. Advogada, neta de um juiz e filha de um promotor da União, interessada em lavador de banheiro? Os preconceitos são deles, então que eles os levem para cama. Cuido de meu amor e já é uma empreitada. Luto para mostrar que não é a chapinha que a fará mais feliz. Sua auto-estima é que conta.
Duma maneira, sou grato a tal chapinha, e muito mais à chuva. Se minha amada não tivesse sido atingida pelo temporal, com certeza entraria no clube e caçaria ou se deixaria fisgar pela antiga paixão. Quando a chapinha molhou ela desabou, eu estava lá para pelo menos enxugar sua alma.