
Olá pessoal! Sei, nunca me viram mais gordo. Na verdade, sou magro, estatura mediana, muito reservado. Embora sendo reservado decidi narrar o que me aconteceu. Numa empresa pública sou quem limpa banheiro, meio eletricista, faz de tudo. Na carteira assinam serviços gerais. Preciso ganhar. Sou estudante de direito. Nada tem a ver com o chavão de que se deve começar por baixo. Foi o ganha-pão que consegui e pronto. Deixo meu currículo de lado e digo a que vim. É sobre a mania de alisar o cabelo que reina entre as mulheres.
Por eu estar volta e meia consertando, lavando, varrendo, inevitável ouvir a verdadeira tortura, dessa necessidade quase insana de buscar o que não se tem. Parecem que nunca ouviram a canção do Gilberto Gil, tipo, sara sara desta doença, que tendo cabelo duro, querer ter cabelo liso...
Não sou preconceituoso. Se falo assim é mais por altruísmo que atitude mesquinha. O custo da manutenção artificial do artificial padrão de beleza consome uma fração pesada do salário. O dinheiro não é o problema; sim, o que pesa mesmo é a pouca satisfação.
Uma advogada me chamou atenção. Era atraente. Contudo, torturava-se na busca por aperfeiçoamento estético. Raro os meses que não aparecia com novidade: chapinha, aplique, etc. Falava de um namorado, mas o namorado um dia a trocou por uma loira de cabelos lisos, bem lisos. Talvez daí o trauma.
Surgiu uma festa, destas que o pessoal da empresa costuma criar. Soube que o ex-namorado, pelo qual ela ainda nutria uma queda, estaria lá e melhor, solteirão, havia terminado com a loira. A advogada viu-se numa verdadeira operação de guerra. Gastou metade de seu salário num tratamento super ultra mega moderno em chapinha.
Por volta das 22h, caiu aquele aguaceiro. A advogada não tinha carro. Perdera a carona e teve que ir de ônibus. Logo que desceu, a chuva cai impiedosamente. A chapinha molhou e a festa para ela acabou. A uma quadra do clube, a água caindo, ela de pé chorava cântaros.
Como sei? Apesar de reservado, me convidaram para festa, mas sou de só dar uma passada. Não bebo, e quem não bebe geralmente é mal visto pelos que tomam todas. Por isso saí cedo. De meu carro, a vi desolada. Parei e ofereci carona. Ela ficou espantada, como se um faxineiro não pudesse ser educado, gentil, compreensível e, sobretudo, ter um carro valorizado.
Duas semanas depois, estávamos namorando. Nem entro no mérito do preconceito lá na repartição. Advogada, neta de um juiz e filha de um promotor da União, interessada em lavador de banheiro? Os preconceitos são deles, então que eles os levem para cama. Cuido de meu amor e já é uma empreitada. Luto para mostrar que não é a chapinha que a fará mais feliz. Sua auto-estima é que conta.
Duma maneira, sou grato a tal chapinha, e muito mais à chuva. Se minha amada não tivesse sido atingida pelo temporal, com certeza entraria no clube e caçaria ou se deixaria fisgar pela antiga paixão. Quando a chapinha molhou ela desabou, eu estava lá para pelo menos enxugar sua alma.
Ronaldo duran publica crônicas em jornais brasileiros e é autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! Disponível nos sites da livraria cultura http://www.livrariacultura.com.br/ e da livraria corifeu www.corifeu.com.br