
por ronaldo duran*
Quando vi tinha perdido o controle do carro. O freio não respondia. E tudo que pude fazer, ainda que de forma instintiva, foi evitar bater na muralha de concreto à minha direita. Joguei o carro para a esquerda, de reflexo. Por sorte carro algum vinha atrás. O carro descontrolado saiu da pista, atropelou uma placa, levantou a tampa de um bueiro e se atolou numa vala rodeada de matagal.
A chuva torrencial que inundou a rodovia Carvalho Pinto contribuiu para que meu carro sofresse aquaplanagem. Vendo-me privado do controle do veículo, do modo como deslizei, senti que chegara a minha hora de partir desta vida. Logo que o veículo parou, pulei pela porta dianteira cujo vidro tinha sido eliminado por completo. Ainda tonto vi a equipe da empresa que administra a rodovia vir a meu socorro, e verificado um leve sangramento na cabeça, pediram uma ambulância, além do carro guincho.
Por sorte sai ileso. Sinal para buscar maior prudência: sempre reduzir o máximo em chuva e evitar andar com pneus meia vida.
Se eu fiquei ileso de ferimentos, não se pode dizer o mesmo do bolso. A falta de seguro, o salário achatado e o crédito tão caro, no dia seguinte já me fizera tremer nas bases. Primeiro, rezei para que não fosse perda total. Mas de 40 prestações para pagar e ficar se carro seria dureza.
E dei início ao martírio que é correr atrás dos mecânicos. Não só pelo fato de que a cada orçamento um preço, e geralmente mais alto. Mas principalmente a cara de espanto dos mecânicos ao ver o estado do meu carro. “Vixe, a batida foi feia!”; ou para amenizar o impacto do futuro orçamento: “Você tem seguro?”. Nem tinha seguro tão pouco me sentia confortável com o ar de espanto. Natural que não somos frios em nossa profissão. Quem sabe seja mesmo motivo para espanto ver que o carro neste estado, precisando de um reparo radical. Mas é que para quem está na pele do prejudicado é dose ouvir os suspiros e frases algo padronizadas e que transparecem mais desespero do que um simples orçamento para se executar um serviço.
O prejuízo é certo. Afinal, necessitando muito do carro, vou ter que pagar, e sem chiar. Aconselharam-me pedir indenização à administradora dos pedágios, pois foi justamente na passagem livre do pedágio que eu tive o encontro com a pista escorregadia. O fato é que eu trabalho o dia inteiro.
O que resta a fazer é seguir o batuque. Pedir desconto ou pelo menos parcelas para suavizar o grosso gasto com o conserto, a fim de que caiba no bolso e eu não fique sem meu querido carrinho, ferramenta indispensável para o trabalho. E ligar pouco para as frases dos mecânicos, principalmente as que me deixam tenso.
E os dias sem carro. Andando para cima e para baixo de pé no coletivo. As horas para esperar o ônibus chegar. Nem é bom pensar. O que importa é que estou ileso, gozando da sorte de não ter ido parar num hospital e lá permanecer não sei quanto tempo antes de sair; isto se realmente saísse com vida. Num acidente de carro tudo é possível, desde perder um braço, perna, a vida ou apenas ganhar arranhões. Mas é sempre bom não abusar da sorte. Graças aos céus vou poder ficar um tempo a mais com minha família e meus alunos.
* escritor, autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! Disponível nos sites da livraria cultura http://www.livrariacultura.com.br/ e da livraria corifeu http://www.corifeu.com.br/
contatos com o autor pelo e-mail ronaldo@ronaldoduran.com
Quando vi tinha perdido o controle do carro. O freio não respondia. E tudo que pude fazer, ainda que de forma instintiva, foi evitar bater na muralha de concreto à minha direita. Joguei o carro para a esquerda, de reflexo. Por sorte carro algum vinha atrás. O carro descontrolado saiu da pista, atropelou uma placa, levantou a tampa de um bueiro e se atolou numa vala rodeada de matagal.
A chuva torrencial que inundou a rodovia Carvalho Pinto contribuiu para que meu carro sofresse aquaplanagem. Vendo-me privado do controle do veículo, do modo como deslizei, senti que chegara a minha hora de partir desta vida. Logo que o veículo parou, pulei pela porta dianteira cujo vidro tinha sido eliminado por completo. Ainda tonto vi a equipe da empresa que administra a rodovia vir a meu socorro, e verificado um leve sangramento na cabeça, pediram uma ambulância, além do carro guincho.
Por sorte sai ileso. Sinal para buscar maior prudência: sempre reduzir o máximo em chuva e evitar andar com pneus meia vida.
Se eu fiquei ileso de ferimentos, não se pode dizer o mesmo do bolso. A falta de seguro, o salário achatado e o crédito tão caro, no dia seguinte já me fizera tremer nas bases. Primeiro, rezei para que não fosse perda total. Mas de 40 prestações para pagar e ficar se carro seria dureza.
E dei início ao martírio que é correr atrás dos mecânicos. Não só pelo fato de que a cada orçamento um preço, e geralmente mais alto. Mas principalmente a cara de espanto dos mecânicos ao ver o estado do meu carro. “Vixe, a batida foi feia!”; ou para amenizar o impacto do futuro orçamento: “Você tem seguro?”. Nem tinha seguro tão pouco me sentia confortável com o ar de espanto. Natural que não somos frios em nossa profissão. Quem sabe seja mesmo motivo para espanto ver que o carro neste estado, precisando de um reparo radical. Mas é que para quem está na pele do prejudicado é dose ouvir os suspiros e frases algo padronizadas e que transparecem mais desespero do que um simples orçamento para se executar um serviço.
O prejuízo é certo. Afinal, necessitando muito do carro, vou ter que pagar, e sem chiar. Aconselharam-me pedir indenização à administradora dos pedágios, pois foi justamente na passagem livre do pedágio que eu tive o encontro com a pista escorregadia. O fato é que eu trabalho o dia inteiro.
O que resta a fazer é seguir o batuque. Pedir desconto ou pelo menos parcelas para suavizar o grosso gasto com o conserto, a fim de que caiba no bolso e eu não fique sem meu querido carrinho, ferramenta indispensável para o trabalho. E ligar pouco para as frases dos mecânicos, principalmente as que me deixam tenso.
E os dias sem carro. Andando para cima e para baixo de pé no coletivo. As horas para esperar o ônibus chegar. Nem é bom pensar. O que importa é que estou ileso, gozando da sorte de não ter ido parar num hospital e lá permanecer não sei quanto tempo antes de sair; isto se realmente saísse com vida. Num acidente de carro tudo é possível, desde perder um braço, perna, a vida ou apenas ganhar arranhões. Mas é sempre bom não abusar da sorte. Graças aos céus vou poder ficar um tempo a mais com minha família e meus alunos.
* escritor, autor do romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! Disponível nos sites da livraria cultura http://www.livrariacultura.com.br/ e da livraria corifeu http://www.corifeu.com.br/
contatos com o autor pelo e-mail ronaldo@ronaldoduran.com