domingo, 24 de agosto de 2008
domingo, 17 de agosto de 2008
PEÃO DE OBRA
A música é divina. As vezes crio ouvindo clássicos. Até sertanejo e pagode, tipo SPC, dão o tom para a escrita. E rock? Nem se fala. Agora mesmo tô ouvindo os gritantes Linkin Park.
Qualquer melodia é bem-vinda, desde que nos anime.
Brigadaço pelo espaço. Sorte pra ti.
Ronaldo
msn: ronaldo@ronaldoduran.com
por ronaldo duran*
Acredito que o peão de obras não precisa ser tão vulgar. Por causa desse desabafo fiquei mal visto pelos colegas de profissão por um bom tempo. Mas que fazer?! Cada um com sua cruz. Advogar uma idéia, defender uma postura sempre gera conflitos, principalmente se destoa do grupo ao qual você pertence.
A indignação já é minha velha conhecida. E mesmo após trinta anos de profissão, ela persiste. É claro, na minha idade, o fervor de se opor fica mais derretido. A rebeldia do jovem dá espaço para uma atitude mais reflexiva. Dizem que é acomodação. Pode ser!
Entrei na profissão como tradicional ajudante de pedreiro. E desde que descobrir em mim racionalidade, nutri pela profissão um misto de amor e ódio.
Amor pela construção. A capacidade de levantar uma parede, fazer reparos, ser bem visto pelo meu paizão, pois eu fui o único que o seguiu na profissão. Ah, tinha o peso de filho mais velho, que devia logo ser prestativo. Mas se fui empurrado para ser pedreiro, só permaneci sendo por gosto.
O ódio era o jeito de falar, de se comportar, de se vestir, de rotar, de cuspir, dos primeiros pedreiros que vi pela frente. Mesmo meu pai não sendo perfeito, longe de se rebaixar a tanto. Na década de sessenta a coisa era mil vezes mais grotesca. A marmita gelada. Após o almoço, o cochilo jogado sobre entulhos. Os dentes cariados e podres fruto do desleixo, falta de educação.
Não foi uma ou duas vezes que pensei em dar no pé e não aparecer mais na construtora.
Mas sempre tem algo que te irrita mais no meio de tanta lama. O pior era o assédio à mulher que passava na rua. Sei lá, ouvir a peãozada falando que lambia, que chupava, que comia. Era uma manga, carne moída, ou mulher de quem falam? Eu era virgem cheio de ilusão. Talvez por isso ficava desolado com os comentários.
Mas eu acredito que a gente pode desejar, que pode ser um super-homem na cama (se é que existe algum) sem precisar ficar espalhando aos quatro ventos que é o tal.
Claro que eu sou homem. Quando vejo uma bela mulher desfilando pela rua eu a aprecio, sem usar de palavras chulas. Porque poderia ser minha filha, mulher ou mãe que vai lá na frente. Nada de dissimulado, apenas respeitador.
Na verdade eu estava namorando. Eu gostava muito da Suely. Eu era romântico. Se eu não fosse filho do pedreito chefe, os caras, claro, que teriam me mandado para a rua quando eu falei cão que muito ladra, pouco morde. Sugeri que quem precisava falar muito sobre sexo é porque fazia pouco ou de modo pouco prazeroso. Meti o dedo no olho do machismo. Quase linchado.
Estudei edificações. Depois surgiu a oportunidade de cursar engenharia. Sou caso raro, quase não conheço ex-servente de pedreiro que seja engenheiro civil. Mas eu batalhei, porque sempre fui meio revoltado em me subjugar.
Minha empreiteira está longe de ser uma clínica de odontologia ou rosado salão de beleza, como alguns maliciam. Mas meu pessoal tem uma sala asseada e confortável para que possam fazer suas refeições e descansar com dignidade.
* Escritor, romancista, contista, autor do livro SONHAR É BOM, VIVER É MUITO MELHOR. Disponível pelos fones 012 30194761 e 012 81523733.
sábado, 16 de agosto de 2008
Bato Com Vontade
Vou me desabafar, então nem me venha pedir consideração. Por falar nessa tal de consideração parece que os bateristas estão cada vez mais desprovidos do mínimo. A gente é visto como o último dos últimos, isto quando chega a ser notado. Lá no fundo, estamos a socar a bateria, dar o melhor de nós. E de que vale? Todos os fricotes e gritos para os vocalistas, piscadas sensuais para os guitarristas. E nós, nada. Eu estava meio de saco cheio. Até pensei dar um tempo. Tudo bem, eu até entendo a divisão de trabalho, compreendo perfeitamente que numa banda os olhos da multidão naturalmente se voltam para quem está com o microfone na mão, soltando a voz, pulando, gritando, excitando a galera.
Sei que numa equipe todos temos nossa parte porque senão a equipe não vinga.
Mas que ego suporta tanta indiferença, humilhação? Já não basta ver por aí vocalista dando entrevista, sendo agarrado, adorado. Sequer valorizam nosso trabalho. Esquecem que sem baterista, o corpo não suinga, os quadris não se mexem freneticamente, as meninas não rebolam, e os rapazes não ficam pulando. Que cantor faz a galera sair do chão só com sua voz? Que balada dá um suadouro se você não se agita ao som da bateria?
Pior é ser barrado na porta. É isto mesmo. Teve uma vez, lá em Assis, que fomos dar um show. Calhou de eu me atrasar. Fui barrado porque o segurança não levou fé que eu era da banda. Ponte que partiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu eu sou baterista. Tive que espernear.
Se eu fosse o vocalista, me estenderiam o tapete vermelho, me reconheceriam logo.
No palco, quando uma tiete corta o bloqueio de segurança, é batata que vá direto para os braços do vocalista. De quebra, um beijinho no guitarrista. E o baterista? Um cão sarnento seria mais notado, pelo menos em função do medo de pegar sarna. A gente fica lá, isoladaço.
É pra deixar irado.
Após o show, no camarote, o único colo que fica vazio é o meu. O vocalista tem uma gata em cada perna. Nem os guitarristas têm do que se queixar.
Ossos do ofício. Nem sou tão frissurado em conquistar ou atrair tietes. Não é esta a questão. É a falta de valorização que me machuca, me pisa. E com a moda do órgão que simula bateria, aí é que estamos ferrados. O cara liga a máquina, e pronto.
Vinha nesse pé, meio irado. Mas a Renata me livrou duma deprê maior. Foi
Toda vez que o vírus do despeito me machuca, eu bato com vontade na minha batera, pois agora tem alguém que me sorri na multidão. Ela costuma ir aos meus shows...
* Escritor, docente na Fundação Casa -SP colabora em jornais. MSN: ronaldo@ronaldoduran.com
sábado, 2 de agosto de 2008
A JAULA
Sempre que ouço o povo malhando alguém famoso como pessoa instável, volúvel, aproveitadora, quando o assunto é casório, eu fico na reserva. Quem tem culpa no cartório se cala para que o alvo de crítica não se volta para si.
Longe de mim comparar-me a um Don Juan em número de conquistas, e não é pelo fato de eu ser mulher, quarentona, pois tenho amigas que em nada perdem para os dois popstars. De casamento passei por dois. E estou no segundo namorado, que quer me enlaçar matrimonialmente.
O primeiro casamento, tinha a curiosidade sexual como atrativo, visto que era virgem. Curiosidade, sim, ainda que inconsciente. Afinal no tempo em que eu era uma adolescente, o ficar ainda não estava institucionalizado, e pai e mãe eram muito amigos, mas igualmente castradores. Vigiavam-me mentalmente por onde eu estivesse.
Claro que quem quer sempre há como escapar. E curtir. E muitas curtiram e eu querendo ir no vácuo, me estrepei. De primeira, engravidei. Nada de neurose, adorei. Dei um salto, virei mãe e dona-de-casa, deixando para trás um emprego legal e uma promissora carreira para adentrar numa mais ainda promissora carreira maternal.
O príncipe do meu lado se transformou. Evito o clichê de que virou sapo. Porque até nós mulheres quando estamos interessadas em conquistar fingimos o que não somos, ainda que não percebamos esta atitude. Imagina o homem que tem mais pressa.
Ele começou a mamar álcool, destoar do que era quando namorávamos. Depois de comer um quilo de sal juntos é que se conhece um pouco o companheiro, diz o ditado.
E as brigas, os desentendimentos, os choros ora sufocados ou gritados, o desânimo visceral, desespero mortal, os dias de semana separados pelo trabalho, o fim de semana separados pela cachaça. Tá, tinha a parada básica, biologicamente determinada. Um beijo aqui, uma carícia ali. Mas chega uma hora que a aversão murcha qualquer libido e queremos mais é se esquivar.
O casamento por vezes parece ser uma jaula na qual se entra e jogamos a chave fora, e quando percebemos, damos de cara com os dentes caninos, as unhas afiadas, a língua venenosa do parceiro que achávamos ser a tal alma gêmea.Vai ver eu esteja exagerando. Vai ver é fruto dessa cabeça meio revoltada, mimada, que tendo tudo, não precisando sofrer por comida, emprego, salário, encana com coisas triviais. Quem sabe eu seja a insatisfeita.
Há quem viva com a Cama Sutra debaixo do braço, com o intuito de não deixar o fogo apagar. Mas viver a dois vai muito além da cama. A cama só é a porta de entrada numa relação duradoura, uma gota de água no oceano chamado casamento.
Por que a paixão diminui? Rebelar-se com esta realidade não se assemelha a revoltar-se contra o fato de que nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos?
Eu vou tratar de cozinhar meu arroz e feijão, lavar minha roupa, me preparar para receber ele à noite. Vamos namorar. Novamente vou fingir não ouvir o pedido de casamento. Até que ele volte para seu apartamento e eu tranque o meu.
* Escritor, docente na EFCP da Fundação Casa -SP. Acesse o autor no Google.