domingo, 20 de julho de 2008

A FORMIGA

por ronaldo duran*

Que Noite Terrível A De Ontem. O maior massacre da história. Nunca ouvi falar de tantos cadáveres juntos. Formigões, formigas, formiguinhas. Amontoavam-se corpos queimados, carbonizados, sufocados pela fumaça. Uma tragédia. Pensar que por frações de minutos eu teria tido o mesmo destino. Sorte a minha é que como hoje seria dia de dar conta do serviço, cuidei de me retirar da festa cedo.
A Festa É Das Tradicionais. Todo ano é uma sensação a festa dos formigueiros de São João do Paraitinga. Caravanas vêm de várias partes do Vale do Paraíba e Serra da Mantiqueira para aí deliciar-se com as comidas típicas. No ano passado tive uma paquera, e por nada desse mundo faltaria à festa. Ela estaria lá. Formosa, linda, meiga, carinhosa, numa palavra, uma formiga para casar e não para ficar.
Limpei Minhas Patas, Antenas, Dei Uma Ajeitada No Visual. Lá estava ela. Cumprira a promessa que me fez. Namoramos, trocamos confidências. Ela me apresentou ao seu pai, um formigão babão, que fica de olho nas formiguinhas adolescentes, com destaque para as tanajuras, mas tudo numa discrição ímpar. A mãe, alvoroçada e faladeira. Dois irmãos que brigavam por tudo, desde um torrão de açúcar até um minúsculo pedaço de folha seca. Boa gente. O carisma fora recíproco. Gostaram de mim.
Dançamos, Nos Divertimos. Namoramos a beça. Por fim nos despedimos depois de trocarmos infinitas juras de amor e promessas que desta vez nos veríamos em breve, visto que a família nos dera passe livre para namorarmos.
Hoje Levantei Empolgado Para Trabalhar. Afinal sonhei fazendo com ela o que não fizemos na realidade. Sem faltar abraços, beijos e muito carinho. Segui meu caminho do quarto para a cozinha, e bastou chegar lá, vejo minha mãe, tia, tios, aos prantos. O que teria acontecido? Uma tragédia fora a resposta unânime. O meu coração disparou. Pensei nela. Saí completamente enlouquecido. Cheguei quase esbaforido ao local do formicídio. As forças ainda me foram suficientes para perambular pelo entulho de cadáveres. Encontrei a mãe dela junto aos dois irmãozinhos. Fiquei aliviado momentaneamente. Mas chegando perto, sentindo o pesar materno, logo mergulhei no desespero novamente. Ela, minha formiguinha preciosa, minha futura esposa, havia tido a vida ceifada junto com o pai. Ai que dor, ai que raiva. Que vontade de suicidar-me, de aniquilar minha vida quando a segurei em meus braços, sua cabeça tosquiada, o crânio rachado. Que dor infernal.
A Causa Do Formicídio? A raça humana. Não é da primeira vez, e tão pouco será a última. Eles vendo nossa festa, nossa digna diversão, ao ar livre, guiados apenas pelo instinto de destruição, visto que o formigueiro não pertencia a qualquer residência, promoveram esta formiguicina. Já nas fazendas, nos sítios, chácaras humanas, perseguem-nos julgando em seu direito. Agora, vem em área desolada, sem dono para covardemente assassinar nossa gente.
Presunçosa espécie, que pensa que o planeta Terra fora criado para si. Inventaram esta mentira, e a força de repeti-la por gerações passaram a aceitá-la como verdade.
Não Tenho Sequer O Poder Da Barata De Meter-lhes Medo, Nojo. Mas tenho coragem. Juro minha formosura, que farei de tudo para vingar sua morte. Serei tão teimoso quanto um Dom Quixote. Juntarei meus companheiros para perturbar os humanos enquanto reste em mim um sopro de vida.

Escritor, colabora em jornais. Psicólogo, pedagogo e professor de francês. Msn: ronaldo@ronaldoduran.com

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Um Toque Sutil

Olá, leitor,
Vamos aproveitar o que temos. Largar mãos
de sofrer pelo que está longe,
desprezando o que
está ao alcance de nossas mãos.
Que a crônica abaixo agrade a você.
Sorte na tua batalha diária,
Ronaldo

Por Ronaldo Duran*


QUERIA TUDO NAQUELE DIA, menos lição de moral. Desejava encontrar espaço para desabafar, dizer que a situação estava ruim. A vida se apresentava sem encanto. O emprego de escrivão de polícia, o irrisório salário, anseio de ser valorizado. A engrenagem do destino parecia travada quanto a me propiciar melhores perspectivas.
É DIFÍCIL FUGIR DE DITADOS do tipo: ‘olhe para trás, e verá sempre alguém pior que você’. Comentários assim têm o poder de nos irritar mais que acalmar. E desabafos como ‘o que eu tenho a ver com isso’ irrompe, protesto cujo único fim é afirmar que se há injustiças sociais ou pessoas em piores situações que eu, também há as que estão numa melhor.
Um brado. Afinal, nós temos direitos a nos lamentar.
NO ÔNIBUS, A LEITURA DO The Economist é rotina para vencer o tempo. Hoje antes de comprar o The Economist novamente a insatisfação tomou conta de mim. Tudo porque tive as portas fechadas do Itamaraty, da carreira diplomática. Nota insuficiente. Mais um ano de dedicação perdido.
NO ÔNIBUS SIGO calado pela leitura. Nada atraente. Fala de atentado, de intolerância, de pessoas trabalhadoras mortas covardemente na ida para o trabalho no trem de Madrid.
Tenho saudade do tempo em que eu era mais tagarela. A pessoa do meu lado seria alvo de deliciosa prosa. Agora, sisudo por força do hábito, apenas divido o banco do coletivo. Um silêncio sepulcral.
DE REPENTE, UM HOMEM moreno, dentes estragados. No bolso, um saco de biscoito comprado do ambulante. Passa pela roleta com uma criança no colo e chama nossa atenção. Para exercer o papel de pedinte deve falar alto.
DE IMEDIATO, MINHA MENTE já se armou. Lembrei das propagandas da prefeitura: não dê esmola, não incentive a mendicância. Há um serviço social disposto a oferecer a devida assistência.
HOJE FOI DIFERENTE. A imagem da criança, as palavras do pai serviram para sacudir. Acabei refletindo sobre a vida. Um ou dois minutos de fala, e afrouxei o nó do egoísmo mórbido que me dilacerava. A criança que mal era alimentada. O pai ali a suplicar moedas.
TENHO EMPREGO. Minha filha está livre de privação. É alimentada, tem carinho e é a razão de minha vida. Casa, esposa, uma carreira. Vejo o homem, sem profissão, sem perspectiva de sustento, mergulhado na mendicância. A consciência me mostra a pequenez em que me afundava. De repente, um toque sutil me paralisa o rancor.
POSSO SER ÚTIL. Vou servir às crianças na escola. Como? No que puder. Eu sou fruto da escola pública. E a educação pode reduzir a miséria, criando futuros pais capacitados a alimentarem bem suas crias. É pouco, mas como propósito de vida conta. Imitarei o assalariado que em horas vagas visita vestido de palhaço hospitais para animar crianças internadas, às vezes estando em fase terminal.
APESAR DE LAMENTOSOS soterrados em interesses pessoais, por vezes temos a chance de refletir sobre o propósito de estarmos vivos e reestruturar nossas ações.


*Autor de romances. Visite os sites http://www.livrariacultura.com.br/ e http://www.corifeu.com.br/. O romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! está disponível.

A FLAUTA

Por Ronaldo Duran*



“Se alguém me contasse eu não acreditaria”, foi a fala do Gui logo que me viu levantar às três horas da manhã para ensaiar flauta. A noite foi boa, sim. Fiz de tudo para que o ego dele não balançasse. Sei, está virando um hábito. Toda vez que ele vem, eu faço isso. Soa incomum sair de perto do namorado no meio da madrugada. Quanto mais no nosso caso, que nos vemos a cada quinzena. Ficaria muito caro e cansativo para ir todo fim de semana para São Carlos. Idem para ele vir para São Paulo. A enfermagem suga toda a energia do meu amor, e nem ligo quando telefona dizendo que está um bagaço ou que tem plantão no fim de semana.

Os sábados solitários já seriam justificativa suficiente para arrumar um passatempo musical. O espanto do Guilherme é que sempre fui roqueira. Uma guitarra, mesmo uma bateria seriam previsíveis. Mas uma flauta? Aos poucos estou explicando os motivos a ele. Participar do coral do campus, preço em conta, o menor incômodo aos vizinhos, e segue a lista dos porquês.
Desde o primeiro ano de faculdade que pertenço ao coral. De início minha participação se restringia ao canto. Quase dois anos exercitando as cordas vocais às sextas-feiras. Era uma sauna para relaxar os nervos depois da aula da tarde. Da minha turma, quatro amigas. O professor de desenho arquitetônico II encerrava a aula e a gente ia para cantina, tomava um lanche e corria para o anfiteatro.

Dos poucos instrumentos que o coral contava, gostei da flauta. Soprei umas vezes, e que fracasso. Mas sei lá por que determinei que eu ia dominar, ia ter destreza. O universo conspira a nosso favor quando nos propomos a fazer algo. E não é que achei um estudante de jornalismo que tocava razoavelmente bem. O rapaz era ótimo. Tá, na terceira aula eu falei que tinha namorado e que até podia pagar as aulas se ele quisesse. Tudo para que ele abandonasse a cara de cachorro faminto e me desse o que me interessava: aulas de flauta. Ele se tocou e ficamos bons amigos.
Superei o mestre, segundo ele, já ao término de seis meses. Os treinos solitários nas várias madrugadas ajudaram nesta empreitada. A flauta acima de tudo foi uma terapia. Das vezes que quis detonar o professor de estatística, aquele engenheiro bêbado e desbocado, bastava eu soprar flautas à noite que no dia seguinte estava zen e que ele rosnasse o que quisesse. A solidão de minha kitinete igualmente fora aplacada pelo som e companhia de minha amiguinha. Até o momento fiz duas apresentações no conservatório da faculdade de música.

No terceiro ano de curso, quando a galera diz que a faculdade vai ou racha, quase pendi para a música. Pensei sinceramente trancar a faculdade de arquitetura e me atirar na de Música. Cheguei até assistir aulas como ouvinte. Mas no fim notei que minha praia era mesmo o ganha-pão de Lucio Costa. Música para fortalecer o espírito, acalmar os nervos. Ouvir flauta me inspirava nos trabalhos urbanísticos.

Tudo bem. Só que preciso moderar a paixão pela flauta para não se tornar um escapismo. Nada a ver deixar meu gato nas cobertas solitário.
(A garota deu um sorriso. Saltou do parapeito da janela. Guardou a flauta na caixa. E correu para debaixo das cobertas com seu amor enfermeiro).

A BELEZA QUE ATRAPALHA

Por Ronaldo Duran*

Queria que tudo fosse fruto de minha cabeça tola. Que esta presunção soasse como algo insano em vez de me espetar de forma tão realista. Sim, a gente vive buscando uma razão para justificar os passos, explicar sucessos e fracassos. E o fracasso de fazer parte da minoria da galera que não entrou na faculdade almejada é suficiente para eu achar uma razão. Todo mundo comemorando e eu aqui na fossa. Falta de estudar, de me aplicar para valer? Sim. Por quê? É a beleza que atrapalha. A beleza que me mima, desviando-me dos propósitos que um vestibulando deve ter em mira.
Como a beleza pode atrapalhar? Me desculpa a presunção. Porém só sendo bela para responder. Já dizia minha avó que tudo em excesso faz mal. O que ela diria de ser assediada pelos rapazes, mimadas por eles? E certos professores mulherengos, ser tão paparicada que deixa tonta? E as professoras que diante de mim sei lá por que se sentem magoadas, e tentam ser superiores com testes que parecem mais difíceis que a média?
Olha como estou zonza. Nada a ver culpar os professores. Eu que sou responsável pelo péssimo desempenho. Assumo que gosto de ser paparicada, ter os meninos me olhando, disputando minha presença, fazendo meus exercícios de física e matemática, escrevendo minha redação, ou, ao menos, me dando dicas mastigadas, quase que me deixando ociosa na classe. Bem, não tão ociosa. Dou atenção a seus instintos e aos sentimentos platônicos. Sorrio, concedo o privilégio de lhes dirigir a palavra. Gostam de sentir meu perfume, de olhar meu rosto. Enfim, levando-os ao delírio e não raro causando briga para ver que domina minha atenção.
Sem contar as horas que gasto atendendo aos suplicantes convites para ir a lanchonetes, tomar sorvetes, cinema. E se meus pais não fossem caretas, provável que eu seguisse para as baladas.
Meu sonho é fazer engenharia civil ou arquitetura. Os carinhas dizem que eu estou delirando, aquela coisa de loira burra. Mas eu vou dar a volta por cima. Tá, nada de me retalhar o rosto para anular minha beleza. Claro que meu ego quer ser paparicado. Quem não quer? Contudo, quero ter uma profissão. Ser respeitada. Há sempre um modo para conciliar situações conflitantes, e nós mulheres somos peritas nisso. Vou rachar de estudar. No que minha beleza pode ajudar? Atrair um gato nerde e junto a ele eu pegar as manhas da matéria. Vou provar a mim mesma que não sou só um rostinho bonito.
Minha Guaratinguetá, talvez eu tenha que te deixar. Mas um dia eu volto formada e pretendo embelezar você ainda mais, desta vez com projetos.
E não vou demorar. Catarei meus cadernos e anotações, diminuirei às idas aos shoppings, ao cinema, às praças de alimentação. Vou trocar o beijo na boca dos gatos pelo papel com as resoluções de problemas de matemática, claro, sempre que eu calhar de acertar.

*Escreve romances e colabora com crônicas em jornais brasileiros. Acesse o autor no google.