Olá, leitor,
Vamos aproveitar o que temos. Largar mãos
de sofrer pelo que está longe,
desprezando o que
está ao alcance de nossas mãos.
Que a crônica abaixo agrade a você.
Sorte na tua batalha diária,
Ronaldo
Por Ronaldo Duran*
QUERIA TUDO NAQUELE DIA, menos lição de moral. Desejava encontrar espaço para desabafar, dizer que a situação estava ruim. A vida se apresentava sem encanto. O emprego de escrivão de polícia, o irrisório salário, anseio de ser valorizado. A engrenagem do destino parecia travada quanto a me propiciar melhores perspectivas.
É DIFÍCIL FUGIR DE DITADOS do tipo: ‘olhe para trás, e verá sempre alguém pior que você’. Comentários assim têm o poder de nos irritar mais que acalmar. E desabafos como ‘o que eu tenho a ver com isso’ irrompe, protesto cujo único fim é afirmar que se há injustiças sociais ou pessoas em piores situações que eu, também há as que estão numa melhor.
Um brado. Afinal, nós temos direitos a nos lamentar.
NO ÔNIBUS, A LEITURA DO The Economist é rotina para vencer o tempo. Hoje antes de comprar o The Economist novamente a insatisfação tomou conta de mim. Tudo porque tive as portas fechadas do Itamaraty, da carreira diplomática. Nota insuficiente. Mais um ano de dedicação perdido.
NO ÔNIBUS SIGO calado pela leitura. Nada atraente. Fala de atentado, de intolerância, de pessoas trabalhadoras mortas covardemente na ida para o trabalho no trem de Madrid.
QUERIA TUDO NAQUELE DIA, menos lição de moral. Desejava encontrar espaço para desabafar, dizer que a situação estava ruim. A vida se apresentava sem encanto. O emprego de escrivão de polícia, o irrisório salário, anseio de ser valorizado. A engrenagem do destino parecia travada quanto a me propiciar melhores perspectivas.
É DIFÍCIL FUGIR DE DITADOS do tipo: ‘olhe para trás, e verá sempre alguém pior que você’. Comentários assim têm o poder de nos irritar mais que acalmar. E desabafos como ‘o que eu tenho a ver com isso’ irrompe, protesto cujo único fim é afirmar que se há injustiças sociais ou pessoas em piores situações que eu, também há as que estão numa melhor.
Um brado. Afinal, nós temos direitos a nos lamentar.
NO ÔNIBUS, A LEITURA DO The Economist é rotina para vencer o tempo. Hoje antes de comprar o The Economist novamente a insatisfação tomou conta de mim. Tudo porque tive as portas fechadas do Itamaraty, da carreira diplomática. Nota insuficiente. Mais um ano de dedicação perdido.
NO ÔNIBUS SIGO calado pela leitura. Nada atraente. Fala de atentado, de intolerância, de pessoas trabalhadoras mortas covardemente na ida para o trabalho no trem de Madrid.
Tenho saudade do tempo em que eu era mais tagarela. A pessoa do meu lado seria alvo de deliciosa prosa. Agora, sisudo por força do hábito, apenas divido o banco do coletivo. Um silêncio sepulcral.
DE REPENTE, UM HOMEM moreno, dentes estragados. No bolso, um saco de biscoito comprado do ambulante. Passa pela roleta com uma criança no colo e chama nossa atenção. Para exercer o papel de pedinte deve falar alto.
DE IMEDIATO, MINHA MENTE já se armou. Lembrei das propagandas da prefeitura: não dê esmola, não incentive a mendicância. Há um serviço social disposto a oferecer a devida assistência.
HOJE FOI DIFERENTE. A imagem da criança, as palavras do pai serviram para sacudir. Acabei refletindo sobre a vida. Um ou dois minutos de fala, e afrouxei o nó do egoísmo mórbido que me dilacerava. A criança que mal era alimentada. O pai ali a suplicar moedas.
TENHO EMPREGO. Minha filha está livre de privação. É alimentada, tem carinho e é a razão de minha vida. Casa, esposa, uma carreira. Vejo o homem, sem profissão, sem perspectiva de sustento, mergulhado na mendicância. A consciência me mostra a pequenez em que me afundava. De repente, um toque sutil me paralisa o rancor.
POSSO SER ÚTIL. Vou servir às crianças na escola. Como? No que puder. Eu sou fruto da escola pública. E a educação pode reduzir a miséria, criando futuros pais capacitados a alimentarem bem suas crias. É pouco, mas como propósito de vida conta. Imitarei o assalariado que em horas vagas visita vestido de palhaço hospitais para animar crianças internadas, às vezes estando em fase terminal.
APESAR DE LAMENTOSOS soterrados em interesses pessoais, por vezes temos a chance de refletir sobre o propósito de estarmos vivos e reestruturar nossas ações.
DE REPENTE, UM HOMEM moreno, dentes estragados. No bolso, um saco de biscoito comprado do ambulante. Passa pela roleta com uma criança no colo e chama nossa atenção. Para exercer o papel de pedinte deve falar alto.
DE IMEDIATO, MINHA MENTE já se armou. Lembrei das propagandas da prefeitura: não dê esmola, não incentive a mendicância. Há um serviço social disposto a oferecer a devida assistência.
HOJE FOI DIFERENTE. A imagem da criança, as palavras do pai serviram para sacudir. Acabei refletindo sobre a vida. Um ou dois minutos de fala, e afrouxei o nó do egoísmo mórbido que me dilacerava. A criança que mal era alimentada. O pai ali a suplicar moedas.
TENHO EMPREGO. Minha filha está livre de privação. É alimentada, tem carinho e é a razão de minha vida. Casa, esposa, uma carreira. Vejo o homem, sem profissão, sem perspectiva de sustento, mergulhado na mendicância. A consciência me mostra a pequenez em que me afundava. De repente, um toque sutil me paralisa o rancor.
POSSO SER ÚTIL. Vou servir às crianças na escola. Como? No que puder. Eu sou fruto da escola pública. E a educação pode reduzir a miséria, criando futuros pais capacitados a alimentarem bem suas crias. É pouco, mas como propósito de vida conta. Imitarei o assalariado que em horas vagas visita vestido de palhaço hospitais para animar crianças internadas, às vezes estando em fase terminal.
APESAR DE LAMENTOSOS soterrados em interesses pessoais, por vezes temos a chance de refletir sobre o propósito de estarmos vivos e reestruturar nossas ações.
*Autor de romances. Visite os sites http://www.livrariacultura.com.br/ e http://www.corifeu.com.br/. O romance ANDO DE ÔNIBUS, LOGO EXISTO! está disponível.
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